segunda-feira, 24 de março de 2008

Espeto à gaúcha

O erro de Márcio Resende de Freitas, na partida disputada entre Corinthians e Internacional, vai ser apontado, eternamente, pelos gaúchos como principal motivo da perda do título brasileiro. Ele não quis prejudicar a equipe sulista, mas acabou cometendo duas falhas – a não marcação do pênalti e a expulsão de Tinga – cruciais para definir o resultado da partida e do campeonato. Contudo, quantos “márcios” apitaram jogos do Inter e favoreceram, também sem influência da má índole, o clube na obtenção dos pontos?

A missão do árbitro é acabar com o conflito de interesses e apontar uma solução. Se, no confronto ocorrido no Pacaembu, não existisse um comandante que apontasse esta ou aquela decisão, os jogadores estariam discutindo, até hoje, se houve pênalti ou não. Márcio errou porque precisou escolher o que marcaria no mesmo segundo em que o fato aconteceu. Sua falha é perceptível devido aos recursos do videotape. Entretanto, ele cumpriu seu dever como árbitro. Tomou a decisão e comunicou às partes interessadas. Assim como Sérgio da Silva Carvalho, do Distrito Federal, na 32ª rodada do Campeonato Brasileiro de 2005.

Estádio da Beira-Rio lotado. Internacional embalado pela boa campanha. Vasco da Gama em péssima fase, lutando para não visitar a Segunda Divisão. O esquadrão gaúcho tinha Jorge Wagner, Fernandão, Tinga e Rafael Sóbis em ótima fase. A representação carioca leva perigo aos adversários com Alex Dias e mais ninguém. Apesar de tamanha superioridade demonstrada pelos nomes, a peleja foi bem acirrada.

O Internacional, ainda mais favorito por jogar em Porto Alegre, foi escalado por Muricy Ramalho com Clemer, Ceará, Ediglê, Vinícius, Jorge Wagner, Gavilán, Tinga, Márcio Mossoró, Fernandão (Perdigão), Rafael Sóbis e Renteria (Ricardinho). No lado cruzmaltino, Renato Gaúcho escalou Roberto, Claudemir, Anderson do Ó, Eder, Jorginho Paulista, Ives, Amaral (William), Abedi, Róbson Luiz (Rodrigo), Morais (Fernandinho) e Alex Dias.

Com apenas um atacante, o Vasco entrou recuado e, completamente, à mercê do talento de Alex Dias. Já o Inter possuía padrão de jogo e teve mais chances. Fernandão e o destaque do Vasco haviam acertado uma bola na trave cada um, quando Rafael Sóbis mandou um balaço na rede carioca e tirou, aos 28 minutos, o zero do placar. Jorge Wagner quase ampliou, no fim do primeiro tempo, mas a pelota beijou a trave de novo.

A entrada de William, um segundo atacante, chegou a dar esperanças ao torcedor do Rio de Janeiro. Porém, Rafael não deu trégua. Aos nove da etapa complementar, Sóbis recebeu sem marcação e fez o segundo dele: 2 a 0 para o Internacional. Delírio nas arquibancadas e justa vibração em campo. O mar vermelho comemorava sem parar. Veio, então, um lampejo de reação vascaína. O relógio de Sérgio da Silva Carvalho apontava 15 minutos. A cabeça de William mirava o interior das balizas de Clemer. E o jovem acertou. Era o primeiro gol do Vasco.

Na metade da etapa decisiva, o pantaneiro Alex Dias – de tão perto que ficou do goleiro gaúcho – viu a cor dos dentes dele, mas errou o alvo. Até este lance, as estrelas da partida vestiam uniformes vermelho ou branco com a fixa diagonal. O apito nervoso não havia sido revelado. Não demorou muito. Fernandão usou a mão-boba a fim de levar vantagem no lance do terceiro tento pampa. Sérgio Carvalho envergou o braço em direção ao ataque do Vasco. Mas não estava marcando nada em favor dos cariocas. Ele mirou o meio de campo. Validou o gol e executou qualquer poder de reação cruzmaltina: 3 a 1.

O resultado parecia definido. Alex Dias ignorou a falta de tempo e continuou atacando. Não mais que o apito de Sérgio. O craque fez a parte dele e colocou a bola lá dentro. Gol anulado. Mal-anulado. Auxiliado por Marrubson Melo Freitas e Enio Ferreira de Carvalho – completavam o trio brasiliense – o árbitro assinalou impedimento. Ele aplicou três cartões amarelos concretos: Ediglê e Ceará, do Internacional, e Morais (Vasco). E um cartão vermelho abstrato. Expulsou as chances reais do empate vascaíno.

Àquela altura, a vitória por 3 a 1 colocou a equipe de Muricy na 3ª colocação, com 56 pontos. Já Renato Gaúcho, que foi a campo, no apito final, reclamar das peripécias de Sérgio da Silva, amargou mais uma rodada na 20ª e desonrosa posição. Os 33 pontos faziam as tradições se remexerem no túmulo.

O argumento do técnico Renato ganhou ares de choro, na visão do torcedor gaúcho. A massa gritou timinho aos revoltados jogadores do Vasco. Reclamar de uma decisão irrefutável, a do árbitro, é um ato abominável? Naquela tarde, era coisa de chorão. Na antepenúltima rodada, nos vestiários do Pacaembu, o repúdio a Márcio Resende representou a bravura dos justiceiros colorados. Os mesmos apaixonados ironizaram a tristeza carioca, no gigante da Beira-Rio, e comemoraram o título, na última rodada. Confiavam no tapetão para reverter o resultado final do Campeonato Brasileiro. Torcedor não é sensato. É torcedor. O Internacional é vice. Sérgio da Silva e Márcio Resende são árbitros e suas decisões têm tanta solidez quanto a taça do tetra corintiano. A lembrança pode somente reforçar a existência de falhas. A revisão é incapaz de mudar uma partida de Futebol.

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