quarta-feira, 11 de junho de 2008

Regra 12 e Artigo 11.11 causam tumulto

Nos últimos três dias, torcedores de Vasco, Cruzeiro, Holanda e Itália se inflamaram para discutir dois lances importantes das partidas realizadas no Campeonato Brasileiro e na Eurocopa, respectivamente. Em terras mineiras, Wilson Souza de Mendonça marcou uma retenção de bola do goleiro Tiago e, na cobrança, os azuis marcaram o gol da vitória. No Velho Continente, Nistelrooy só tinha Buffon entre ele e a linha de fundo, mas o sueco Peter Fröjdfeldt validou o primeiro tento holandês na goleada por 3 a 0 em cima da Azzurra.

Wilson é reincidente em confusões. No Campeonato Estadual de Pernambuco de 2007, o Rivelino empatou para o Vera Cruz contra o Central, mas ele não viu e indicou tiro de meta. Errou. O Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) avaliou o caso e decidiu dar um ponto ao time prejudicado. Um ano antes, o meio-campo Romeu, do Fluminense, entrou em campo com uma máscara protetora para atuar contra o Vasco, pois vinha de uma operação no nariz. Mendonça impediu e ordenou a retirada do adereço. Errou mais uma vez. Porém, no domingo, dia 8 de junho de 2008, no Mineirão, em Belo Horizonte, o árbitro acertou. Interpretou de maneira inesperada devido ao constante desrespeito pela lei por parte dos jogadores, mas agiu de forma correta.

Após lançamento errado, Tiago deixou a bola bater em suas luvas, ajeitou para o lado com os pés e agarrou a pelota. De acordo com o item 2 da regra 12, ao tocar pela segunda vez, o goleiro impede o adversário de chegar e infringe o regulamento.

Regra 12:

Será concedido um tiro livre indireto à equipe adversária se um goleiro cometer uma das seguintes cinco faltas dentro de sua própria área penal: 1 – Tardar mais de seis segundos em por a bola em jogo depois de havê-la controlada com suas mãos. 2 – Voltar a tocar a bola com as mãos depois de havê-la posto em jogo e sem que qualquer outro jogador a tenha tocado; 3 – Tocar a bola com as mãos depois que um jogador de sua equipe a tenha cedido com o pé; 4 – Tocar a bola com as mãos depois de tê-la recebido diretamente de um arremesso lateral lançado por um companheiro; 5 – Perder tempo.

A International Board esclarece o item 2: será considerado que o goleiro controla a bola, quando a toca com qualquer parte de suas mãos ou braços. A posse da bola também incluirá a defesa intencional do goleiro, porém não inclui quando, na opinião do árbitro, a bola rebate acidentalmente no goleiro, por exemplo, depois de fazer uma defesa.


O outro salseiro aconteceu no Stade de Suisse, em Berna (Suíça), na segunda-feira (09/06/08). Ainda com o 0 a 0 no placar, Ruud Van Nistelrooy recebeu ótimo passe e estufou as redes de Gianluigi Buffon. No lance, o lateral-direito italiano Cristian Panucci havia caído fora das quatro linhas, justificando a legalidade do gol. Peter Fröjdfeldt validou o lance porque, de acordo com o artigo 11.11 da FIFA, Panucci era, mesmo fora do campo, o segundo homem entre Ruud e a linha de fundo. O primeiro era Buffon.

Artigo 11.11 da Fifa

O defensor que deixa o campo durante uma jogada e não retorna imediatamente deverá ser ainda considerado como estivesse no campo de jogo, caso algum jogador de ataque esteja em posição de impedimento. Este defensor será considerado como se estivesse sobre a linha de fundo. O defensor que deixar o campo com a permissão do árbitro (e que portanto precisará de autorização para regressar) não estará incluído nesta determinação de impedimento. Se um jogador de defesa sair para trás de sua própria linha de fundo com o intuito de colocar um oponente em posição de impedimento, o árbitro permitirá que a partida continue e dará uma advertência ao jogador que tentou provocar tal situação de jogo.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

O canto do canário

Em nosso país, os erros de arbitragem menos comentados são os que acontecem a favor da Seleção Brasileira. Os destemidos canarinhos já foram prejudicados e beneficiados em partidas importantes, principalmente, nas Copas do Mundo. Nos torneios de menor expressão, a repercussão não é tão grande. Contudo, a sobrevivência da história depende do esforço em função da lembrança. Túlio que o diga. Maravilha dominou a bola no braço antes de marcar um gol nos argentinos, na semi-final da Copa América de 1997, e levou o Brasil à decisão para ser vice do anfitrião Uruguai. Mas para o torcedor Copa importante é a do Mundo. O coração dispara, a garganta estraga e, se o juiz – como é mais conhecido o árbitro, atrapalha o ataque verde e amarelo, recebe o xingamento em coro de centenas de milhões.

Duas conquistas e um fiasco nacionais, no mínimo, tiveram participação decisiva dos árbitros. Do bi ao penta mundial, passando pela tragédia do Sarriá, os homens do apito mudaram o resultado de jogos inesquecíveis. É inevitável o envolvimento da Seleção Brasileira em partidas com falhas de arbitragem. Até 2002, em 17 edições da Copa do Mundo, o Brasil disputou 7 finais. Posicionou-se em 3º duas vezes, uma vez em 4º. Jogou 2 quartas-de-final, 1 oitava-de-final e uma segunda fase. Não passou da primeira fase apenas em três casos. Dá para descrever boa parte da História das Copas a partir da trajetória brasileira.

Errar contra o Brasil é crime inafiançável. A favor é humano. Na campanha do segundo título mundial, no Chile (1962), o árbitro Salvador González Bustamante viu o invisível. Puskas, húngaro naturalizado espanhol, pintou um lindo gol de bicicleta. Entretanto, o chileno borrou a obra do atacante da Espanha. A Seleção Brasileira precisava do empate para classificar-se à segunda fase. Venceu por 2 a 1, no dia 6 de junho, auxiliada pela anulação do lance resultante no golaço de Puskas.

Na Copa de 1982, o público espanhol bebeu o vinho italiano da vingança em uma taça de cristal israelense. Brasil e Itália jogaram a sorte no Estádio Sarriá, em Barcelona, na Espanha. Os canarinhos rezavam pelo empate rumo à semi-final. Paolo Rossi marcou três vezes contra dois tentos dos brasileiros. Em 5 de julho, poderia ter acontecido um Carnaval fora de época no país do Futebol. Bastava Abraham Klein, árbitro de Israel, marcar pênalti nascido na agarrada do zagueiro Gentile no atacante Zico. A camisa dele e o coração dos brasileiros foram, literal e poeticamente, dilacerados.

A falta de competência arbitral agraciou até a Família Felipão. Nas oitavas-de-final da Copa Japéia (Japão/Coréia) de 2002, quando a eliminatória contra a Bélgica estava empatada, o jamaicano Peter Prendergast invalidou o gol normal de Marc Wilmots. Aos 35 minutos do primeiro tempo, Mpenza levantou na área. Wilmots subiu mais que zaga e bateu o goleiro Marcos. O árbitro apontou falta do bom jogador belga em Roque Júnior. Contudo, nem o mais fanático torcedor brasileiro entre os 40 mil 440 presentes ao Estádio Kobe Wing entendeu a marcação do perigo de gol. Rivaldo e Ronaldo acabaram construindo a vitória por 2 a 0 na etapa final. Você pode retrucar: se a Bélgica fizesse o primeiro, o resultado seria 2 a 1. Talvez. Reverter o placar após sair atrás em jogo decisivo de Copa do Mundo não é tão simples como se pode pensar. Fazer 2 a 0 é diferente – creio ser menos difícil – do que transformar 1 a 0 em 2 a 1.

O árbitro é um personagem da partida de Futebol. Ele recebe dinheiro para exercer sua função, precisa manter bom condicionamento físico e tem carreira curta. Seus objetivos assemelham-se aos dos jogadores. Quer participar de uma Copa do Mundo. Apitar a final é o maior sonho. Gosta de receber prêmios e reconhecimento em curto prazo. A principal diferença entre as missões destes dois elementos é a lembrança. Os boleiros querem ser lembrados. Quanto mais recordações ligadas a eles, maior é o orgulho. Já os árbitros devem buscar a antítese. Com certeza, os melhores não foram citados neste blog. Eles acertam. São esquecidos.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Está expulso!!!

O encontro mais importante das trajetórias vitoriosas de Flamengo e Atlético foi marcado para o dia 21 de agosto de 1981. Campeão e vice, respectivamente, do Brasileirão do ano anterior, os dois clubes chegaram à Copa Libertadores com boas chances de conquista. Os rivais argentinos Rosário Central e River Plate não encararam a competição com os principais jogadores e facilitaram a missão dos brasileiros. Urubu e Galo caíram no Grupo 3 ao lado de Cerro Porteño e Olimpia, ambos do Paraguai. Terminaram empatados, chegando aos 8 pontos (2 vitórias e 4 empates). Devemos lembrar que àquela altura um triunfo valia somente 2 pontos. O regulamento do campeonato sulamericano previa, em caso de igualdade na pontuação, uma partida extra em campo neutro. A vaga ficaria com o vencedor desta final antecipada. Em 1981, só o primeiro de cada chave podia continuar o sonho.

A situação de equilíbrio entre as equipes do Brasil pode ser vista no desenrolar da primeira fase. O Flamengo de Zico, Adílio, Júnior e mais um monte de craques começou empatando com o Atlético-MG de Reinaldo, Éder e Palhinha por 2 a 2, em 3 de julho. No dia 14, meteu 5 a 2 no Cerro Porteño. Dez dias depois, ficou no 1 a 1 com o Olimpia. O returno rubro-negro apresentou o mesmo cenário. Empate frente ao Atlético (2 x 2 – 07/08), vitória sobre o Cerro (4 x 2 – 11/08) e nova igualdade diante do Olimpia (0 x 0 – 14/08). No lado atleticano, além dos já citados empates nas lutas contra o Flamengo, computa-se 0 a 0 (17/07) e 1 a 0 (28/07) com o Olimpia. Também conseguiu vencer o Cerro fora de casa por 1 a 0, no dia 21 de julho. Em território brasileiro, tudo igual: 2 x 2 (31/07).

Para o pega decisivo nada de Maracanã ou Mineirão. O candidato tupiniquim ao título de melhor do continente americano seria conhecido no gramado do estádio Serra Dourada, em Goiânia (GO). Ao árbitro José Roberto Wright foi passada uma missão duríssima: mediar a grandiosa rinha boleira. No embate entre as duas maiores aves futebolísticas do país, Urubu e Galo, uma, necessariamente, sairia depenada pela outra. O que ninguém esperava era ver Wright despejar um oceano de água fervente nas costas do rei galináceo. De acordo com notícias surgidas às vésperas da partida, o árbitro, que viajara no avião da delegação carioca, estava no mesmo hotel dos flamenguistas. Todas estas características eram encaradas como coincidências. Entretanto, a inocência morreu assim que a bola rolou.

O cronômetro apontava 10 minutos do primeiro tempo, quando as vias cerebrais de José Roberto entraram em curto-circuito. Reinaldo cometeu falta normal em Zico. Wright enfiou a mão no bolso e o punhal no pescoço do Galo. Expulsou o Rei. Alguns otimistas pensavam que ele errara o lado da camisa, mas era mesmo vermelha a cor do cartão almejado pelo árbitro. Na seqüência, Éder derruba um adversário, sem maior gravidade, e segue o mesmo caminho do companheiro. Rua! Vala! Sebo! Está expulso!

Pouco mais tarde, o braço incansável arrancou mais três penas do ovíparo mineiro: Palhinha, Chicão (corretamente) e Osmar. José Roberto Wright jogou fora o controle do clássico e os atleticanos perderam a cabeça, arrancada a sangue frio pelo peão de frigorífico disfarçado de árbitro. Cartolas do Atlético Mineiro invadiram o campo. O treinador Carlos Alberto Silva demonstrava transtorno e revolta. No entanto, o leite já havia sido derramado. Ou os ovos estralados. Antes dos 40 minutos, Wright excluiu cinco jogadores do clube mineiro, entregando a vitória ao Flamengo, visto que o Atlético apresentava número insuficiente de atletas em campo.

O Mengão recebeu a vaga embalada em penas de Galo. Definitivamente, a verdadeira seleção deveria ter sido poupada desta mancha. Sobravam habilidosos: Raul, Leandro, Figueiredo, Mozer, Júnior, Andrade, Adílio, Zico, Tita, Nunes, Baroninho e Lico. Em 14 jogos, o Flamengo superou 8 adversários. Perdeu só uma partida. Zico fez 11 gols. O técnico Paulo César Carpegiani estreou com prancheta de ouro. Entretanto, deve a possibilidade de ser campeão da Copa Libertadores e, no fim do ano, do Mundial Interclubes às interpretações de José Roberto Wright.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Mão do Diabo

Pode alguém roubar 11 pessoas e ficar impune? É possível realizar um assalto com 114 mil e 600 testemunhas e não ser preso? Sim. No Futebol, tudo é possível. Em 22 de junho de 1986, o ágil larápio conhecido como “Dieguito” usou a mão (uma só) para tirar de uma turma de ingleses o mapa que leva ao tesouro mais desejado da Terra, cujo valor é inestimável. O comparsa do argentino veloz é o tunisiano Ali Bem Naceur, temido pela força destruidora de seu apito.

Dieguito recebeu ainda o auxílio do bando alvi-celeste formado por Pumpido, Brown, Ruggeri, Olarticoechea, Giusti, Cuciuffo, Batista, Enrique, Burruchaga (Tápia) e Valdano. Todos estes eram chefiados pelo mafioso Carlos Salvador Bilardo. A locação dessa operação cinematográfica, onde atuaram os talentosos ladrões, foi constituída no Estádio Azteca, na Cidade do México.

Os milhões de vitimados da nação roubada – a Inglaterra – foram representados pelos bravos Shilton, Stevens (Barnes), Fenwick, Butcher, Sansom, Reid (Waddle), Hoddle, Steven, Hodge, Lineker e Beardsley. Dieguito, que causa inveja nos goleiros porque sabe usar a mão como poucos, e a gangue argentina reforçada pela cegueira de Ali Bem Naceur escolheram as quartas-de-final da Copa de 1986, no México, para colocar em prática seus dons ilusionistas.

Nos primeiros 45 minutos de show, várias tentativas e nenhum êxito. Restava pouca coisa da paciência de “Dom Diego Armando Maradona” (o tal do Dieguito). Estrelar espetáculos sempre foi seu principal objetivo. Não importa o meio. Ele precisa do máximo de atenção possível. Por isso, assim que notou o medo britânico frente à grandiosidade de seus 166 centímetros, tomou para si o controle das ações.

Maradona criou, no próprio corpo, uma emenda diabólica. Só com este artifício seria possível esnobar Peter Shilton, paredão erguido a 1, 85 metro do solo. Mágicos, foras da lei, providenciais e infernais. Assim podem ser definidos Dieguito e a cortada (no melhor estilo voleibol) responsável por desviar a bola do goleiro inglês e abrir o placar em prol da Argentina. Ele afirmou ser aquela a “Mão de Deus”. Porém, é divino trapacear? O Espírito Santo tem atitudes duvidosas quanto à ética dos céus, que preza respeito ao próximo acima de tudo? Não. Portanto, lamento informar a Diego: foi a “Mão do Diabo” quem trouxe o milagre pedido, aos 6 do segundo tempo. Por que Deus seria bom para os argentinos e safado diante dos britânicos?

Armando exige demais Dele. Não basta receber tamanho poder com a bola nos pés? Tirar a visão do árbitro Ali Bem Naceur, no momento da irregularidade, é responsabilidade do Capeta. Deus nada tem a ver com os desvios de conduta dos humanos. O Divino pode ser culpado pelo segundo gol de Maradona. Este é dádiva do Supremo. Dieguito, já perdoado pela primeira fraqueza, deu as pernas em troca de ferramentas artesanais. Preferiu utilizar agulhas. Aconteceu, naquele lance, a magia do paraíso. Ele costurou, como um nobre alfaiate, os defensores da Inglaterra desde o meio do gramado. Atravessou até a muralha. Um oásis futebolístico. Balançou as redes, ampliando a vantagem portenha.

Lineker tentou, mas era difícil bater uma equipe que tinha um ser capaz de dialogar com os dois extremos da força. Gênio do bem e do mal. Diego Armando Maradona consegue ser imperador em uma república. É único. Só ele fez os hermanos deixarem de lado a derrota na Guerra das Malvinas para a mesma Inglaterra, em 1982. No campo, lavou almas sujas em trincheiras. Os argentinos, forçados a entregar ilhas, obrigaram o planeta bola a lhes ceder o máximo: a Copa do Mundo.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Trocou as bolas

Márcio Resende de Freitas é figurinha fácil neste livro. Ele é bom árbitro. Justamente por este motivo, o escalam em partidas importantes, nas quais os erros têm conseqüências gravíssimas. Podem trocar a mão a ser colocada na taça. Na maioria das vezes, é o que acontece. Na final do Campeonato Brasileiro de 1995, ele validou o irregular e anulou o legal. As lambanças não tiraram a credibilidade da competição. O campeão jogou melhor e mereceu soltar o grito entalado na garganta desde o primeiro Brasileirão, realizado em 1971. Quem perdeu também poderia ter conquistado a glória. Só não conseguiu porque o senhor das decisões cuspiu vento quando deveria ficar quieto e deixou o apito calado nos momentos ideais para usá-lo. Chegar à decisão é difícil. Superar uma perda, deixando de gravar o nome no salão nobre do clube por causa de falhas de um árbitro, é ainda mais.

Botafogo de Futebol e Regatas contra Santos Futebol Clube é, antes de qualquer detalhe contemporâneo, um clássico vistoso em decorrência do passado destes dois esquadrões onipresentes na trajetória da bola nos gramados brasileiros. No meio da década passada, o encontro decidiu, em dois jogos, os rumos do Campeonato Brasileiro. A primeira partida, disputada no Maracanã e arbitrada por Sidrack Marinho, transferiu a vantagem do empate do alvinegro da baixada para o carioca. Wilson Gottardo e Túlio marcaram os tentos do Fogão. Giovani descontou. A torcida botafoguense achava o resultado insuficiente, protestando após o término do confronto. Queria uma goleada e acabou presenteada com uma vitória difícil e apertada.

O desânimo do torcedor de General Severiano contagiou a inflamada galera santista. Apostando em uma empreitada triunfante, lotou o Pacaembu em busca do primeiro título do Brasileirão. Os paulistas acreditavam na competência do técnico Cabralzinho e no alto rendimento de Edinho, Marquinhos Capixaba, Ronaldo, Narciso, Marcos Adriano, Carlinhos, Marcelo Passos, Robert, Giovani, Jamelli e Camanducaia. Por que a equipe avassaladora não passaria pelo Bota? Nas semi-finais, perdera o jogo de ida por 4 a 1 para o Fluminense, antes de atropelar o mesmo por 5 a 2. Reverteu a vantagem de 3 gols e sucumbirá frente a um diferença mínima?

Rejeitando a descrença de parte da cachorrada, o Glorioso queria o triunfo na casa do adversário. Os abnegados de Paulo Autuori eram Wágner, Wilson Goiano, Wilson Gottardo, Gonçalves, André Silva, Leandro Ávila, Jamir, Beto, Sérgio Manoel, Túlio e Donizete. Não bastava ao Botafogo jogar bem e ignorar a pressão do Peixe. Era preciso driblar previsões e, no mínimo, empatar a partida. O dia 17 de dezembro de 1995 guardava emoções fortes para os corações botafoguenses.

Depois de 281 jogos e 710 gols marcados, dois clubes superaram os outros 22 e assumiram as rédeas da grande decisão. O duelo travado entre Giovani e Túlio Maravilha ganhou Márcio Resende como terceiro personagem. Árbitro brasileiro de primeira linha, rebaixou os craques a coadjuvantes e se tomou para si o lugar de protagonista. No primeiro tempo, Sérgio Manoel alçou a bola com sua habilidosa perna esquerda na área do Santos. Túlio, impedido, bateu sem chances para Edinho, o filho boleiro do Rei Pelé: 1 a 0 Botafogo. Autuori armou a retranca em função do resultado parcial. Agora, o time paulista via-se obrigado a promover uma reviravolta no placar.

As feras de Cabralzinho fizeram arder a chama da esperança. O primeiro minuto da segunda etapa acabara de ser completado quando Marquinhos Capixaba usou a mão a fim de matar a bola. Em seguida, tocou, na medida certa, em direção a Marcelo Passos. A revelação da Vila Belmiro balançou as redes de Wágner. O gol marcava o empate do Santos e a segunda falha de Márcio Resende de Freitas. A escorregada derradeira estava a caminho. Enfurecidamente, Giovani e sua trupe avançaram sem pudor. Mas Leandro Ávila, Gonçalves e Gottardo estiveram quase perfeitos. Deixar o ataque santista à vontade não integrava o planejamento da linha defensiva carioca.

O arisco Camanducaia fuçou a zona do agrião até furar o canteiro. Restavam poucos minutos. Pressão do Santos. A zaga do Botafogo espanta o perigo usando todos os recursos possíveis. Apreensão no banco de reservas. Tensão máxima. Empate é do Fogão. Um gol dá o título ao elenco praiano. Camanducaia recebe, olha o posicionamento de Wágner e guarda no âmago da meta do goleiro botafoguense. Gol legítimo. Nem tanto para o indivíduo que cismou em inverter as regras do Futebol. Márcio Resende invalidou o lance. Dilacerou a espinha sem dó e arrancou as vísceras do Peixe.

Prêmio pela artilharia (23 gols), título inédito e bola da final repousam nas prateleiras de Túlio. Cifras enormes resultantes de contratos milionários fermentam nas contas de Giovani. Já o troféu abacaxi deveria sapecar as mãos de Márcio Valida os Errados e Anula o Certo Resende de Freitas.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Dono do mundo míope

A final do 1° Mundial de Clubes da Fifa foi disputada entre Vasco da Gama e Corinthians, no dia 14 de janeiro do ano 2000. O Estádio Mário Filho (Maracanã) foi o palco da decisão do primeiro campeonato envolvendo clubes do mundo inteiro com reconhecimento da entidade máxima do Futebol. Dois times brasileiros entraram em campo, mas, se um erro gravíssimo de arbitragem não fosse cometido, um clube espanhol estaria no gramado na última partida, ocupando o lugar da equipe que acabou faturando o título.

O Mundial de Clubes da Fifa, no Brasil, teve a participação de oito clubes dos cinco continentes. No grupo A, sediado no Estádio Cícero Pompeu de Toledo (Morumbi), em São Paulo, estavam Corinthians (representante da CBF por ser, na época, o bi-campeão brasileiro – 1998 e 1999), o espanhol Real Madrid (Copa Intercontinental de 1998), os árabes do Al-Nassr (Supercopa da Ásia) e o Raja Casablanca (Copa Africana de Clubes). Os jogos do grupo B aconteceram no Maracanã entre Vasco da Gama (Copa Libertadores de 1998), Manchester United (Copa dos Campeões da Europa), o mexicano Necaxa (Copa da Concacaf) e os australianos do South Melbourne (Copa dos Campeões da Oceania).

A seleção dos clubes para formar os grupos apresenta detalhes que mostram a falta de critério da Fifa. Como o Mundial de Clubes foi disputado na primeira quinzena de janeiro, deveriam participar dele os campeões continentais de 1999, mas o Palmeiras, que havia conquistado a Libertadores daquele ano, ficou de fora. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) escolheu o Corinthians para representar o país sede. A Conmebol apontou o Vasco da Gama como seu campeão. Porém, o time carioca venceu a Libertadores de 98. Enquanto isso, a Uefa credenciava o Manchester United, campeão da Copa dos Campeões de 99. Os dois – Vasco e Corinthians – são representantes menos legítimos do que seria o Palmeiras. Mesmo com estas incongruências, a Fifa, na época presidida pelo brasileiro João Havelange, assinou embaixo e a bola rolou nos gramados de Morumbi e Maracanã.

O Vasco venceu as três partidas e ficou na liderança do grupo B. Liderado por Edmundo e Romário, o time superou South Melbourne, Manchester United e Necaxa por 2x0, 3x1 e 2x1, respectivamente. A equipe carioca fez 9 pontos. Na segunda posição vieram os mexicanos do Necaxa, com 4 pontos e 1 gol de saldo a mais que o Manchester.

Na chave A, Corinthians e Real Madrid terminaram a primeira fase com 7 pontos. Os dois derrotaram Raja Casablanca e Al-Nassr. No confronto direto, empate por 2 a 2 (gols de Edílson e do francês Anelka). O critério de desempate que definiu a classificação dos paulistas para o jogo final foi o saldo de gols. O Timão tinha balanço positivo de 4 gols, pois marcara 6 e sofrera 2. Já o Real fez 8 e tomou 5, totalizando saldo de 3 gols. Se o erro de arbitragem não tivesse acontecido, o clube espanhol iria à decisão porque tinha vantagem no critério seguinte: o número de gols marcados. Mas, afinal, que erro é este? Se a memória não o salvou, as linhas abaixo vão tratar do esclarecimento.

A noite de quarta-feira, dia 5 de janeiro de 2000, guardava muito mais que uma estréia vitoriosa do Sport Club Corinthians Paulista. Naquela noite, um gol não marcado, mas validado por um árbitro italiano entraria para a história do time com a segunda maior torcida do Brasil. O adversário era campeão africano Raja Casablanca. Cerca de 25 mil pessoas assistiram à partida na capital financeira da América do Sul. Embalados pela conquista de dois Campeonatos Brasileiros consecutivos, os corintianos torciam pelo esquadrão comandado por Oswaldo de Oliveira. Entraram em campo Dida, Índio, João Carlos, Fábio Luciano, Kléber, Vampeta (Edu, aos 40 minutos do 2° tempo), Rincón, Marcelinho Carioca (Marcos Senna – 19 minutos da etapa complementar), Ricardinho, Edílson e Luizão (Dinei, aos 35 minutos do 2º tempo). Logo aos 5 minutos de jogo, Luizão abriu o placar e tranqüilizou os torcedores no Morumbi. A derrota por apenas um gol não era um desastre para os africanos e a partida seguiu morna. Entretanto, quando o relógio marcava 20 minutos da segunda metade do confronto, houve um cruzamento na área do goleiro Chadili e Fábio Luciano desviou para tentar aumentar a vantagem.

Seu esforço seria em vão, já que a bola não entrara. Mas o árbitro italiano Stefano Braschi enxergou além do real e apontou o centro de campo: 2 a 0 para o Corinthians. Este foi o lance do título. Mais importante até que a bola fora de Edmundo dando a glória aos paulistas (4x3) nos pênaltis decisivos contra o Vasco. O gol de Fábio Luciano fechou o placar, confirmou a vitória do Timão, credenciou a equipe a participar da final em detrimento do Real Madrid e colocou o clube na história como o grande campeão do Mundial de Clubes da Fifa. O único a dominar o mundo sem, antes, conquistar seu próprio continente.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

O motivo da Fúria

Todo boleiro sabe: a melhor pelada é aquela na qual a bola é de todo mundo ou não pertence a nenhum jogador. Caso contrário, o desenrolar do jogo está condicionado, na maioria das vezes, ao humor e à permanência em campo do proprietário da pelota. Basta ele cansar ou perder vários rachas seguidos para inventar um empecilho, ir embora e levar a bola sob o braço.

Outro desafio enfrentado por peladeiros é a disputa de partidas em um campo que tenha dono enjoado. Ele deve, necessariamente, ser o craque, a estrela, o artilheiro, o melhor, mais bonito e insuperável nas divididas. O mala precisa vencer de qualquer maneira. Pior ainda quando alguém decide compactuar, fortificando estupidez do indivíduo que só aceita vencer.

Se, no racha de várzea, a roubalheira exorbitante a favor do anfitrião tira do sério a mais tranqüila criatura, o que dizer acerca de um assalto à mão armada, com o apito, em uma das quartas-de-final do campeonato de Futebol mais importante do mundo. Trata-se não apenas de uma garfada. Recordaremos um esfaqueamento com detalhes cruéis adicionados pelo egípcio mais múmia do contexto esportivo bretão.

No dia 22 de junho de 2002, restavam vários grãos de areia nos olhos e cérebro de Gamal Gandhour. As pragas do Egito impregnaram seu raciocínio. Curiosamente, o povo a sofrer não foi o do país africano. As mazelas da maldição caíram sobre a nação espanhola. Os mais de 40 mil expectadores presentes ao Estádio Gwangju, na Coréia do Sul, testemunharam a maior série de erros arbitrais em uma única partida de Copa do Mundo. Aliás, erro não é a palavra mais adequada. Neste caso, houve manipulação com influência direta em prol de um só time: o coreano.

Espanha e Coréia do Sul chegaram à terceira fase da Japéia – primeira Copa sediada, simultaneamente, em dois países – dispostas a ficar entre as quatro melhores seleções do mundo. Entretanto, seus objetivos históricos eram diferentes. Os espanhóis direcionavam os esforços a fim de projetar sua nação como vencedora e derrubar a lembrança de terem sempre bons times e, no entanto, ficarem pelo caminho. Já os orientais queriam festa. Mesmo jogando sob observação dos 48 milhões, 422 mil e 644 olhos puxados, a equipe havia superado seu sonho. O que viesse era lucro.

A formação escolhida pelo holandês Guus Hiddink, dificilmente, vai ficar na memória do leitor. Contudo, vale a tentativa. Lá vai: Lee Woon-Jae, Choi Jin-Cheol, Kim Nam-II (depois, Lee Yong), Yoo Sang-Cheol (Lee Cheon-Soo), Kim Tae-Young (Seon-Hong), Seol Ki-Hyun, Lee Young-Pyo, Ahn Jung-Hwan, Hong Myung-Bo, Park Ji-Sung e Song Jong-Gook.

O selecionado latino possuía uma ótima safra encabeçada pelo guarda-metas Iker Casillas, o zagueiro Puyol e o atacante Morientes. O técnico José Antônio Camacho adicionava Ivan Helguera (Xavi), o experiente Fernando Hierro, Baraja, De Pedro (Mendieta), Romero, Valerón, (Luis Enrique), Nadal e Joaquín. Raúl também integrava este timaço; porém, estava fora devido a uma lesão na virilha. A Espanha era, no papel, superior à Coréia do Sul e a várias outras seleções presentes no mundial.

No início da guerra por uma vaga na semi-final, a supremacia teórica não refletiu-se no gramado. Os coreanos vinham de uma vitória, após a prorrogação, sobre a Itália, na qual o equatoriano Byron Moreno expulsara Totti e invalidara diversos ataques legais da poderosa Azurra. Na área espanhola, Ahn Jung-Hwan exigiu atenção redobrada de Puyol. Os ataques da Espanha eram interrompidos pelas chuteiras mal calibradas. A Coréia organizava contra-ataques pouco técnicos e velozes. Quando a bola conseguia vencer o bloqueio no meio-campo coreano, o pavor dos orientais surgia dos pés e da cabeça de Morientes. Importante, no primeiro tempo, só as inúmeras inversões de faltas do árbitro Gamal Gandhour. Os bastões agitados pela torcida coreana começavam a chacoalhar os miolos do egípcio.

A primeira maldição de Gandhour foi lançada no início da segunda etapa. Aos 5 minutos, Baraja marca de cabeça e abriria o placar para os europeus. Isto se Gamal não anulasse. Ele viu – só ele – um empurrão do espanhol no defensor da Coréia do Sul. Em seguida, um lance perigoso e não interceptado pelo apito embalsamado. Park Ji-Sung solta uma bomba e Casillas segura o ímpeto asiático. O mau desempenho dos atacantes e o surto arbitral levaram o jogo à loucura da prorrogação.

Um segurador de apito pode prejudicar uma equipe de várias formas. Alguns aplicam cartões em lances normais e, logo após, expulsam os jogadores do time a ser garfado por causa de reclamações. O egípcio abriu mão deste recurso corrupto. Mostrou apenas três amarelos a Yoo Sang-Cheol, De Pedro e Morientes. Gamal Gandhour e seus auxiliares Michael Ragoonath (Trinidad e Tobago) e Ali Tomusange (Uganda) escolheram outras ferramentas, tão irregulares quanto à supracitada. Revoltaram espanhóis e admiradores do jogo limpo no planeta Terra inteiro.

Nos primeiros toques da prorrogação, Joaquín cruza e Morientes faz o gol de ouro. Espanha vai à semi-final? Não! O faraó coreano e o auxiliar de mumificação futebolística alegaram saída de bola pela linha de fundo, antes de o lateral mandar a bola na cabeça no matador espanhol. Se a pelota fez um passeio fora do campo, as Pirâmides de Gizé são miragem. Assim como faz uma Naja em sua presa, Gandhour injetou seu veneno no sistema circulatório de Camacho e companhia. A fase de bola rolando acaba e a seleção espanhola vence por 2 a 0. Quem dera. Na realidade, a injustiça imperou no gramado do Gwangju: 0 a 0 e pênaltis.

Os atletas coreanos aproveitaram as cinco oportunidades. Quando Joaquín partiu para cima da bola, Lee Woon-Jae avançou, aproximadamente, dois metros e defendeu a cobrança. Desta vez, Gamal não anulou. Tudo estava certo para ele. A Espanha foi prejudicada e a Coréia ganhou a chance de bater de frente com a Alemanha na próxima fase. Os alemães venceram e, posteriormente, foram goleados pelo Brasil. Os coreanos voaram além do planejado. A revolta de Morientes – e a de seus companheiros e conterrâneos – justificou a fama da Fúria Espanhola. E o árbitro? Tomara que esteja perdido no Saara. O Futebol sem ele é um oásis.